EU SOU no mundo
ou Juntando os próprios CACOS
As pessoas estão pensando umas nas outras o tempo todo. Muitos dos meus valores e anseios (o que exteriorizo) estão gravados naqueles que participam do meu universo. Minha energia vincula-se a deles, minhas esperanças e desejos estão em seus corações, a minha existência está em cada um. O meu estado de consciência perde o seu caráter intrínseco para equilibrar o Todo, alimentando cada elo, cada amigo, cada ambiente, cada processo do qual participo. Deixo-me em pedaços, alimentando mentes e corações. Não obstante, todos estão em mim, seus pensamentos, seus anseios, esperanças, tristezas, alegrias, estados de consciência. Alimento-me dos cacos do mundo, harmonizando uma corrente que parece não cansar de crescer, mostra-se cada vez mais conivente, mais coesa, mais bonita. Não se trata de usurpar, mas somar, acrescentar em mim cada um que passa como se fosse flor que deixa uma profusão de pétalas, cada qual com o seu valor. Estamos todos cravados uns nos outros. Deus, como sou dependente dos gestos de carinho e atitudes fulgurantes. Sou escravo da boa conduta de cada um, como sou culpado pelo mundo em que vivo. A experiência de um reflete em cada alma, em cada elo. Quem são os elos senão eu mesmo brotando em cada amigo querido, em cada desconhecido? Quando sinto tal necessidade, aquela busca de mim mesmo, quando desejo juntar os cacos, identificar-me no mundo, procuro-me em cada coração, palavra, sorriso alheio. Busco-me para saber se vou indo bem, se não há o que melhorar. Confesso: considero importante identificar cada parte de mim impregnada em você. Como não achar natural que eu espere algo das pessoas ao meu redor? Só se não fôssemos muitos em um só, destacando-nos do mundo. Só assim. Talvez ainda nesta vida, quando o meu amor for suficiente para me sustentar sem choradeiras e quando a minha paz for capaz de exaurir minhas atitudes idiotas, talvez eu mergulhe para não voltar mais, confiante que ajudo o universo a cada braçada.


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